Protótipos desenvolvidos na USP unem propriedades funcionais e decomposição acelerada, oferecendo solução sustentável para embalagens descartáveis na indústria alimentícia
Na busca por soluções ambientalmente responsáveis para substituir o poliestireno expandido (EPS), popularmente conhecido como isopor, uma equipe de pesquisadores do Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), da USP, desenvolveu bandejas biodegradáveis compostas por amido de mandioca e resíduo de cúrcuma subproduto da extração de pigmento da especiaria.
O projeto, conduzido pelo pesquisador Guilherme José Aguilar sob orientação da professora Delia Rita Tapia Blácido, propõe uma alternativa com forte apelo ecológico e potencial aplicação na indústria de embalagens para alimentos, especialmente nas categorias de fast food e produtos perecíveis.
A estrutura das bandejas foi obtida por meio de um processo de termo prensagem industrial, combinando amido de mandioca, glicerol, goma guar, estearato de magnésio, água e diferentes proporções do resíduo de cúrcuma. O objetivo foi otimizar características como resistência mecânica, repelência à água e isolamento térmico, propriedades essenciais em embalagens alimentícias.
Foram testadas quatro proporções amido/cúrcuma: 100:0 (controle), 90:10, 80:20 e 70:30. Os resultados indicaram que a composição 90:10 apresentou o melhor desempenho geral, equilibrando resistência e biodegradabilidade. A adição do resíduo vegetal contribuiu para a diminuição da porosidade e absorção de líquidos, embora as bandejas ainda não sejam completamente impermeáveis como as de EPS.
Um dos principais diferenciais da pesquisa está na comprovação da biodegradabilidade do material. Os protótipos foram enterrados em solo orgânico por 31 dias, simulando condições reais de descarte. A bandeja feita apenas com amido se decompôs completamente em 14 dias. Já as versões com cúrcuma levaram entre 28 e 31 dias para a degradação total. Em contrapartida, o EPS não apresentou qualquer sinal de decomposição no mesmo período.
“O isopor pode fragmentar-se em microplásticos que permanecem por séculos no ambiente, oferecendo riscos à biodiversidade e à saúde humana. Nossas bandejas, por outro lado, são provenientes de fontes renováveis e retornam ao meio ambiente de forma segura e rápida”, destaca Aguilar.
Apesar dos avanços, os pesquisadores alertam que o material não é resistente a altas temperaturas, degradando-se a partir dos 250 °C, o que o torna inadequado para uso em fornos. No entanto, seu desempenho em temperaturas de até 100 °C o torna viável para embalagens de alimentos frios ou em temperatura ambiente, como frutas, vegetais e refeições prontas.
A pesquisa ainda precisa avançar para validações em escala industrial e análises de viabilidade econômica, além de testes com alimentos reais para garantir segurança sanitária. Mesmo assim, os resultados publicados no Journal of Cleaner Production apontam um caminho promissor para a substituição de plásticos convencionais por alternativas biodegradáveis e funcionais.
“O mercado demanda urgentemente soluções sustentáveis para embalagens descartáveis. Nosso material atende a esse apelo, e tem potencial para ser comercialmente competitivo”, conclui Aguilar.