Investimento previsto pela Ardagh para montar duas unidades fabris de embalagens para bebidas em Juiz de Fora pode superar R$ 2,5 bilhões
O grupo irlandês Ardagh vai investir pesado para aumentar sua presença no mercado brasileiro de embalagens para bebidas. Acaba de definir duas fábricas em Juiz de Fora (MG) – uma para produzir latas de alumínio e outra de vidro, ambas em terrenos que pertenciam à montadora de automóveis alemã Mercedes-Benz. O investimento total poderá superar US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões) e o anúncio será oficializado esta semana.
Em latas de alumínio, o investimento vai gerar a quarta unidade do grupo no país, onde chegou em 2016. O negócio é conduzido pela Ardagh Metal Packaging (AMP), que é 75% controlada pelo grupo e foi listada na bolsa de Nova York no ano passado, com sede em Zug, na Suíça. Já no setor de vidro será a primeira incursão do grupo no Brasil (ver texto abaixo).
No negócio de alumínio, o investimento nas duas linhas de produção de latas será da ordem de US$ 260 milhões (R$ 1,3 bilhão). A capacidade instalada total, na primeira fase, terá 3 bilhões de unidades ao ano. O valor do aporte toma por base a unidade anunciada pela AMP na Irlanda (menor), de US$ 200 milhões, e o tão conhecido custo Brasil.
O início das obras da fábrica mineira está previsto para setembro e o começo de operação das duas linhas até o final de 2023.
A AMP, terceira maior fabricante de latas de alumínio do mundo, com vendas de 40 bilhões em 2021, está atrás das americanas Ball e Crown. Estreou no país com a aquisição de duas fábricas – Jacareí (SP) e Alagoinhas (BA) Esses ativos foram adquiridos justamente da Ball após comprar a Rexam mundialmente, por exigência de órgãos da concorrência. Foram, no todo, 12 unidades fabris, por mais de US$ 3 bilhões. Em 2018, ergueu uma de tampas em Manaus.
A AMP vem fazendo programas de ampliação da capacidade, tanto em latas quanto em tampas. Faz parte da estratégia de dobrar capacidade global até 2024, com investimentos de US$ 2 bilhões.
“Estamos trabalhando na meta de atingir 10 bilhões de latas fabricadas no Brasil em 2024”, disse ao Valor o CEO da AMP no Brasil, Jorge Bannitz. As duas unidades existentes, com ampliações que vão terminar até o final do ano, projetam atingir capacidade nominal próxima de 8 bilhões de latas ao ano. Jacareí, diz, saiu de 2,2 bilhões para 4 bilhões, se transformou no maior site de latas da América do Sul.
O executivo, nascido no Rio de Janeiro, tem longa experiência nessa indústria, onde começou a atuar em 1991, na antiga Latasa, que foi comprada pela Rexam, e esta pela Ball. Antes, teve carreira na Accenture, Garantia e BTG Pactual. É formado em Matemática.
Na Ball, de 2005 a 2015, ocupou diversos cargos: diretor financeiro (CFO) e de suprimentos (Supply Chain) e responsável por fusões e aquisições. Em 2016 optou por ficar na empresa do grupo Ardagh, que comprou os dois ativos desinvestidos pela Ball.
Segundo Bannitz, o mercado brasileiro tem perspectivas promissoras de crescimento. No ano passado, as vendas de latas tiveram alta de 5,2%, após aumento de 7,4% em 2020, quando houve uma paralisação entre abril e maio por causa da pandemia. “Logo depois voltou com tudo, puxadas pelo consumo doméstico, principalmente de cervejas em lata”. Em 2021, o total de latas vendidas no país alcançou 33,4 bilhões, segundo a Abralatas.
Apesar da economia menos aquecida, com um mercado imprevisível e inconstante, e da inflação em patamar elevado, o executivo vê perspectiva de a vendas crescerem até 5% em 2022. Vários eventos voltaram, como Carnaval e tem Copa do Mundo de Futebol no fim do ano. Além disso, a estocagem nos clientes – indústria de bebidas – vem sendo consumida desde o ano passado, diz Bannitz.
A demanda por latas também cresce por ganhos de participação sobre outras embalagens e entrada de novas bebidas: além de cervejas, refrigerantes e sucos, já são vendidos em lata chás, água de coco, vinho, água, espumantes… Ao todo, cerca de 20 tipos de bebidas.
Juiz de Fora (MG) foi escolhida estrategicamente. A região Sudeste é vista como importante mercado em contínua expansão. Em três anos serão três fábricas de latas erguidas no Estado: a da AMP, a da Ball (Frutal) e da Crown (Uberaba). “Minas está virando um grande polo cervejeiro”, diz o executivo.
Outro ponto favorável é a viabilidade de construir um terminal ferroviário, utilizando a linha ferroviária [da MRS ] que passa ao lado do terreno. Com isso, poderá receber matérias-primas e transportar seus produtos acabados.
A fábrica mineira, segundo informa a AMP, terá linhas de produção equipadas com o que há de mais moderno tecnologicamente na indústria de lata de alumínio para bebidas. Objetivo da empresa é também utilizar fontes de energia renovável, como eólica, solar, biomassa e de pequenas centrais hidrelétricas.
O portfólio de embalagens nessa fábrica prevê, no momento, quatro formatos: lata de 269 ml, a de 350 ml sleek (fina), 350 ml tradicional e 473 ml (meio litro).
O terreno, cuja posse foi tomada há 45 dias com a Mercedes-Bens, tem uma área de 270 mil metros quadrados. A fábrica terá 130 mil metros. O site, portanto, terá espaço para futuras expansões. O terreno não inclui a área da fábrica de vidro, que terá a sua ao lado.
Sediada em São Paulo, a AMP Brasil tem 900 funcionários hoje e prevê mais 220 pessoas em Juiz de Fora.
No projeto de expansão, a unidade de Alagoinhas está ganhando uma terceira linha neste ano. A produção de tampas em Manaus dobrará para 10 bilhões até 2024
Globalmente, a AMP opera 24 fábricas de lata nas Américas e Europa, empregando 5.800 funcionários. No ano passado, a empresa teve receita de US$ 4,1 bilhões.
Fonte: Valor 23.05.2022



