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Por que o consumo de produtos premium aumenta no Brasil

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Dinheiro obtido de fontes alternativas, os famosos “bicos”, aumenta a confiança de consumidores e estimula a venda de itens mais caros e de melhor qualidade

Inicialmente percebida em sinais pontuais e esparsos refletidos em uma bateria de indicadores, a recuperação da economia começa a ser notada, de fato, nos lares dos brasileiros. Importante parte dessa retomada pode ser creditada a um fenômeno que normalmente é associado a situações extraordinárias: o aumento da renda por meio de trabalho extra. O dinheiro obtido com os conhecidos “bicos” e a confiança na possibilidade de viver com esse tipo de rendimento estão impulsionando o consumo, tanto de alimentos quanto de eletroeletrônicos. E mais: a renda extra está levando os brasileiros a optar por produtos que vão além do básico e avançam por categorias mais caras. “Após momentos de absoluta restrição de consumo em todos os segmentos, iniciada em 2013, começamos a observar neste segundo semestre uma movimentação diferente, que não ocorria desde antes da recessão”, explica Patrícia Coelho, analista da consultoria Nielsen. “Famílias que passaram a ter a renda reforçada pelo extra, como o obtido por motoristas de aplicativos, entregadores de comida ou doceiras, voltaram a adquirir produtos a que haviam renunciado na crise, como os de melhor qualidade.” Do fundo do poço da recessão do país, em 2016, até o terceiro trimestre deste ano, a renda de pessoas com mais de uma ocupação remunerada cresceu de forma mais acelerada do que o ganho das que mantêm apenas uma — 3,2%, contra 2,4%, segundo dados do IBGE.

Em setembro, 3,4 milhões de brasileiros tinham duas ou mais atividades remuneradas — um crescimento de 41% desde o momento mais drástico da crise econômica, em 2016. Se o trabalho formal garante o pagamento de despesas como aluguel e fornecimento de água, luz e gás, os reais adicionais obtidos nas horas vagas abrem caminho para gastos extravagantes. E a expansão de novos ramos de atividade, como o de transporte e o de entregas por aplicativos, está diretamente ligada a esse fenômeno.

Metalúrgico, Gleidson Alves dos Santos, de 38 anos, tornou-se motorista de aplicativos em 2017, quando ficou desempregado. Em junho, conseguiu se recolocar como caldeireiro industrial numa refinaria, em Mauá (SP). Em vez de abandonar a ocupação provisória, passou a combinar a jornada diária na empresa com as corridas realizadas de três a quatro vezes por semana, à noite. Como caldeireiro e motorista, Santos incrementou sua renda em pouco mais de 50%. “Adotamos uma alimentação mais saudável, com arroz integral, açúcar mascavo, sal rosa, e substituímos o refrigerante pelo suco de frutas, produtos que são mais caros que os básicos”, diz. “Ainda consegui trocar os celulares dos meus dois filhos por aparelhos melhores e mais modernos.”

Os especialistas em consumo têm uma expressão específica para se referir ao fenômeno protagonizado por famílias como a do metalúrgico de Mauá. Trata-se da “premiunização” (o neologismo deriva da palavra inglesa premium, usada para definir os produtos mais nobres e caros), que envolve a busca por produtos e serviços de maior qualidade e variedade. Com isso, pequenos luxos até então impensáveis passaram a fazer parte do orçamento de brasileiros que se equilibravam entre os ganhos restritos e o medo de perder o emprego em curto prazo. O trabalho extra é um sinal claro da opção pelo aumento de renda, mesmo que isso implique perda de qualidade de vida. Ser motorista de aplicativo está longe de representar uma conquista profissional. Para um incremento de 1 300 reais na renda mensal, um prestador de serviço precisa dirigir pelo menos 100 horas por mês. Mas não são poucos os que veem aí uma grande oportunidade. Adestrador de cães, Wellington Rodrigues de Oliveira, de 37 anos, dedica boa parte de suas horas vagas ao volante de um automóvel para poder usufruir pequenas indulgências. “Eu sempre apreciei tomar vinho nos fins de semana, mas era das marcas mais baratas, que custavam menos de 20 reais. Agora, já posso escolher um importado”, conta.

Um dos indicadores que apontam a recuperação do poder de compra das famílias é a venda de aparelhos de televisão. Estudo realizado pela consultoria alemã GfK mostra que, enquanto a comercialização de televisores comuns teve retração de 23% entre janeiro e agosto de 2019, a receita com modelos com tecnologia 4K, uma das mais avançadas, cresceu 36% em comparação ao mesmo período do ano anterior. É um movimento anômalo, uma vez que anos de Copa do Mundo, como 2018, tendem a registrar os melhores índices de vendas de TVs. O levantamento também esmiuçou outra categoria de produto, os smartphones. O faturamento com aparelhos que custam até 2 500 reais cresceu 2% entre janeiro e agosto, ao passo que o obtido com a venda de celulares com valor acima de 2 500 reais, com câmeras melhores, mais memória e tela maior, teve um avanço de 36%.

A “premiunização” é um fenômeno democrático e não se restringe a categorias que são vistas como supérfluas ou eletivas. Produtos que os consumidores deixaram de comprar desde o início da crise econômica, em 2013, voltaram a encher os carrinhos. É o caso de pães com grãos integrais, cerveja puro malte, água engarrafada, azeite extravirgem. Além de retomarem o consumo, os brasileiros estão visitando mais vezes os comerciantes. Segundo a empresa de pesquisas Kantar, no terceiro trimestre deste ano, a quantidade de idas aos pontos de venda cresceu 7% na comparação com os três meses imediatamente anteriores — é a primeira alta desde o segundo trimestre de 2018. “Isso ainda não revela um aumento expressivo dos gastos, mas constata um consumo de escolhas de valor, priorizando a aquisição de produtos para o lar”, diz Giovanna Fischer, diretora de marketing da Kantar.

Com a taxa básica de juros em seu nível mínimo histórico de 4,5% ao ano, o aumento da oferta de crédito ao consumidor, a inflação controlada e o nível de desemprego estável, o brasileiro começa a sentir também mais segurança ao assumir compras parceladas e eventualmente financiamentos mais longos. “Passado o temor de perder o emprego, como viu acontecer com seus vizinhos e primos, o brasileiro está começando a afrouxar o cinto”, explica Marcel Motta, da consultoria Euromonitor. Uma notícia mais que alentadora depois de seis anos de aperto.

 

 

 

 

 

Fonte: Veja 06.01.2020

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