Alta nominal no trimestre é sustentada pelo aumento do ticket médio, enquanto queda em volume revela consumidor mais seletivo.
O varejo alimentar brasileiro encerrou o primeiro trimestre com avanço nominal de 1,4% no faturamento, em um cenário marcado por retração no volume de vendas. De acordo com dados do Radar Scanntech, o desempenho ficou aquém da inflação do período e foi impulsionado exclusivamente pelo aumento de 3,6% no preço médio, enquanto o número de unidades comercializadas recuou 2,1%.
O resultado evidencia uma mudança relevante no comportamento do consumidor, que tem reduzido a quantidade de itens por compra e adotado uma postura mais criteriosa. O tamanho médio do carrinho apresentou queda de 2,5%, ao passo que o fluxo nas lojas permaneceu praticamente estável, com leve crescimento de 0,2%. O movimento indica priorização de categorias com maior valor agregado em detrimento de itens básicos.
Nesse contexto, observa-se o avanço da premiumização no setor. Categorias de maior valor vêm ganhando espaço, enquanto produtos essenciais enfrentam retração, influenciados por ajustes na renda das classes mais baixas e pela reorganização do orçamento da classe média.
O mês de março concentrou maior pressão sobre os resultados. Mesmo com o impulso sazonal da Páscoa, categorias como bebidas registraram desempenho negativo, com queda de 13,3% no volume e de 6,7% no faturamento. O resultado reflete, em parte, o efeito calendário, já que, no ano anterior, o Carnaval ocorreu no mesmo período, estimulando o consumo.
Na mercearia básica, o cenário também foi desafiador. Apesar de leve crescimento de 1,6% em volume, o faturamento caiu 7,3%, impactado pela deflação de itens como arroz, açúcar, óleo e café. Em contrapartida, categorias sazonais apresentaram forte desempenho, com destaque para ovos de Páscoa, que registraram crescimento superior a 360%, e chocolates, com alta acima de 50%.
O canal atacarejo também apresentou retração, com queda de 0,8% no faturamento e de 3,5% no volume em março. No acumulado do trimestre, as perdas chegam a 1% em receita e 3,8% em unidades vendidas, indicando redução de dinamismo em um formato tradicionalmente associado ao consumo mais sensível a preço.
Regionalmente, o desempenho foi heterogêneo. O Nordeste liderou o crescimento, com alta de 2,3% no faturamento, enquanto regiões como São Paulo e o eixo Sudeste registraram retrações mais acentuadas, refletindo maior pressão sobre o consumo.
Os dados reforçam um cenário em que o crescimento do varejo alimentar está cada vez mais atrelado à elevação de preços, em um ambiente de consumo mais cauteloso, seletivo e sensível a variáveis econômicas e sazonais.