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Início » Brasileiro busca comida reconfortante
Nielsen Por Janaina7 minutos de leitura09/07/2020 · 16:56

Brasileiro busca comida reconfortante

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Confinamento estimulou brasileiros a cozinhar em casa e aqueceu a indústria.

A quarentena imposta pela pandemia despertou o espírito de mestre-cuca nos brasileiros e a vontade de comer algo que traga conforto e emoções positivas. Confinados por causa de trabalho remoto, jornada reduzida, licença não-remunerada ou desemprego, os consumidores passaram a cozinhar mais em casa, o que também ajudou a conter os gastos.

Pães e bolos feitos em casa fazem aumentar a venda de fermento e farinha O consumo de chocolates e pão de queijo – exemplos clássicos do “eu como porque mereço” – cresce. E também há maior demanda por leite condensado, sopas, temperos e massas. Os fabricantes desses produtos informam que houve aumento na venda de todos esses produtos acima da média de outros alimentos. E, segundo a inflação oficial, os preços dos alimentos preparados em casa, que de fevereiro a abril estavam subindo, mostram desaceleração desde então (ver gráfico).

A Nestlé precisou fazer ajustes na linha de produção. Na fábrica de São José do Rio Pardo (SP), a companhia contratou 60 pessoas para a produção de caldos, sopão, temperos e outros. “Em Montes Claros [MG], também reforçamos o time para uma quarta turma e aumentamos em 12 horas semanais o volume de produção de leite Moça”, disse o vice-presidente de marketing e comunicação da Nestlé, Frank Pflaumer. Segundo o executivo, há maior procura por alimentos saudáveis e alimentos que tragam conforto para vencer a quarentena. “Desde o início de abril, o consumidor ampliou a cesta de compras, incluindo itens como biscoitos, chocolates e leite condensado”, afirmou Pflaumer.

A busca por alimentos que podem fazer o consumidor se sentir melhor também fez crescer as vendas da empresa mineira Forno de Minas, que produz alimentos congelados e tem como carro-chefe o pão de queijo.

“Enquanto as vendas gerais nos supermercados cresceram 23% nesses meses de isolamento, em relação ao mesmo período do ano passado, as vendas da Forno de Minas avançaram 31%. Houve uma migração clara da alimentação na rua para a alimentação no lar”, disse Vicente Camiloti, sócio e membro do conselho da Forno de Minas.

Para Camiloti, o pão de queijo é um item – bem mineiro, mas também de sucesso consolidado em muitas outras regiões do país – que evoca conforto, tradição, nostalgia, reuniões de família e que combina muito com esses dias dentro de casa. A Forno de Minas não divulga resultados, mas se apresenta como tendo 46% de participação na categoria de pães de queijo congelados. Cerca de 70% de sua receita advém das vendas do produto.

De acordo com dados da Nielsen, alguns ingredientes culinários além dos itens básicos como arroz e feijão mostram desempenho acima da média de vendas em supermercados, hipermercados e atacarejo. É o caso de fermento químico, usado em bolos e biscoitos, que teve aumento de 30,9% nas vendas em valor no acumulado do ano até 14 de junho, em comparação com o mesmo intervalo de 2019. As vendas de fermento biológico, usado em pães, cresceram 83,2, enquanto as de alimentos aumentaram 10,2% nesse tipo de varejo.

“Tivemos aumento na demanda pelo fermento em pó Royal, que decorre do hábito crescente de cozinhar em casa”, disse Marcelo Paiva, diretor de vendas da Mondelez Brasil. O executivo considera que houve um aumento do consumo no lar de alimentos que despertam emoções positivas e reforçam a conexão com os familiares. “Percebemos uma alta nas categorias de biscoitos, chocolates e sucos em pó, com as quais atuamos por meio das marcas Oreo, Club Social, Lacta e Tang. Em chocolates, as vendas cresceram dois dígitos durante a pandemia”, acrescentou Paiva.

A Nielsen também citou alta nas vendas de farinha de trigo (27,1%), óleo (23,8%), molhos prontos (36%), tempero de mesa (21,8%), leite de coco (16,5%) e creme de leite (13%), do início do ano até 14 de junho, em relação a igual período do ano passado.

“As pessoas estão há mais de cem dias em quarentena. É muito tempo para ficar em casa só comprando comida pronta. O custo também é alto. As pessoas tiveram que se readaptar e reduzir custos cozinhando em casa”, afirmou Fernanda Vilhena, gerente de atendimento ao varejo da Nielsen. De acordo com a analista, o aumento nas vendas desses ingredientes indica que a culinária ganhou corpo dentro de casa, com receitas mais elaboradas.

A mudança nos hábitos dos consumidores favoreceu indústrias como a M. Dias Branco, maior fabricante de biscoitos e massas do país, além de atuar regionalmente em categorias como farinhas, margarinas e bolos. A empresa é dona de 19 marcas, como Vitarella, Fortaleza, Piraquê, Isabela e Adria. Gustavo Theodozio, vice-presidente de investimentos e controladoria da M. Dias Branco, disse que o volume de produção da companhia cresceu 18,5% no primeiro trimestre e manteve-se em expansão durante a pandemia.

“O momento é positivo em diferentes segmentos. Vimos um aumento expressivo no consumo de massas, com os consumidores cozinhando mais em casa, ao mesmo tempo em que biscoitos também ganharam relevância, especialmente as opções que são consumidas por toda família, como cream cracker, maisena, Maria e recheados”, disse Theodozio.

Renan Morais, gerente da empresa de pesquisa e consultoria Kantar Worldpanel, disse que o consumo de refeições feitas em casa aumentou 27% durante a pandemia. De maneira geral, disse, os consumidores fazem as escolhas de compra tendo em vista o prazer e a conveniência. Nas regiões Sudeste e Sul, houve expansão das vendas de itens para lanches como hambúrguer (alta de 20%), batata congelada (19%), almôndegas, quibes e outros salgados (15) e presuntaria (10%).

“Cresce principalmente o preparo de refeições rápidas. No Nordeste, cresce o consumo de cuscuz. Em São Paulo, o macarrão e o arroz ganham espaço. Esses preparos são complementados com o ‘delivery’ ”, disse Morais. De acordo com dados da Kantar, durante a pandemia, 53% dos consumidores que pediram comida em domicílio repetiram isso de duas a três vezes por semana. A Kantar também registrou alta no preparo de pães caseiros e de bebidas achocolatadas para refeições intermediárias.

Fernando Rosa, diretor comercial da Kraft Heinz, disse, sem citar números, que a companhia teve um “crescimento expressivo” nas vendas de molho, ketchup, maionese e milho entre março e junho, em relação ao mesmo período do ano passado.

“A pandemia gerou uma valorização do essencial e a cozinha faz muito parte disso, porque proporciona momentos importantes de interação com a família. O preparo de refeições em casa ganhou ainda mais importância”, afirmou Rosa. Ele acrescentou que a categoria de lanches também ganhou força nesse cenário, com “produtos que remetem à infância e um alívio por meio da comida”.

A General Mills, dona das marcas Yoki e Kitano, reportou aumento nas vendas de grãos, como pipoca, grão de bico e lentilha, e de condimentos naturais, durante a pandemia.

“Devido às restrições sociais, os consumidores estão preparando mais refeições, de forma mais cuidadosa em casa, com seus familiares. Também foi possível perceber aumento na procura por canais digitais, como ‘e-commerce’, onde temos concentrado esforços para aumentar nossa presença”, afirmou Fernanda Faria, chefe de inteligência de mercado consumidor da General Mills para América Latina.

Para Fernanda Vilhena, da Nielsen, quanto mais tempo as pessoas cozinharem em casa, maiores as chances de manterem esse hábito depois da quarentena. “Os consumidores voltarão a comer fora de casa, mas com uma frequência menor do que antes da pandemia. E vão continuar cozinhando em casa, porque se tornou um hábito prazeroso”, disse.

 

 

 

 

 

 

Fonte: Valor Econômico 06.07.2020 

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